Por Edenildo Souza Couto.

Os militantes dos Juizados Especiais Estaduais Cíveis navegavam em águas, relativamente, tranquilas. É verdade que existiam divergências pontuais sobre aplicação de um ou outro dos diversos institutos aplicáveis ao microssistema das causas de menor complexidade.

Certamente, a falta de maiores discussões acaloradas advém da estabilidade de sua lei de regência, a Lei nº 9.099/95, decorrente, principalmente, de seus vinte e dois anos de existência, sem que tenha havido modificações relevantes do seu texto.

Contribui, evidentemente, para a estabilidade de seus institutos a pequena quantidade de artigos em seu corpo: da porção que regula os feitos cíveis, contam-se nada mais do que 59 artigos.

Calha lembrar, outrossim, a existência do Fórum Nacional dos Juizados Especiais, muito conhecido pelo FONAJE. Ele ocorre anualmente. Reunidos, vários magistrados atuantes neste microssistema, discutem vários temas controvertidos, tanto de índole processual, quanto de natureza material. Ao fim do evento anual, aprovam súmulas, que, conquanto não tenham natureza vinculante, servem de norte para juízes de todo o Brasil.

É inegável que, neste sentido, o FONAJE presta relevante serviço à comunidade jurídica, principalmente porque, até então, não existe nos juizados estaduais uma turma de uniformização de jurisprudência própria, ao contrário do que ocorre nos juizados federais[1].

Ocorre que a vigência do novel Código de Processo Civil (CPC), Lei 13.105/2015, provocou grande rebuliço entre aqueles que lidam com os processos em trâmite nos Juizados Estaduais Cíveis. Diversos foram os motivos. Cito, por exemplo, a controvérsia sobre a possibilidade de aplicação integral das multas previstas no artigo 523, §1º do CPC[2] aos feitos regidos pela lei de regência do microssistema em cotejo.

Mas neste trabalho, verifica-se outra balbúrdia que passou a azuretar a vida dos que trabalhavam, sem maiores perrengues, nos juizados estaduais cíveis: a forma como deve ser contado o prazo processual.

Fato é que desde que a Lei 9.099/95 passou a vigorar em nossas terras, aplicavam-se, subsidiariamente, as normas do Código de Ritos. E assim o é por diversos motivos, aqui elencados os mais relevantes.

Consta no artigo 3º, II da lei em apreço que os juizados especiais são competentes para processar e julgar as causas enumeradas no artigo 275, II do CPC de 1973.

Dispõe, outrossim, nos artigos 52 e 53, que a execução de título extrajudicial terá apoio subsidiário das regras encartadas no Código de Ritos.

Ademais, constava, expressamente, no artigo 273 do CPC revogado que ao procedimento sumaríssimo (rectius sumariíssimo), deveriam ser-lhe aplicadas as disposições do rito ordinário, regulado por aquele.

Pois bem.

É imperioso lembrar que os prazos podem ser contados de diversas formas: em minutos, a exemplo dos 20 minutos para sustentação oral (artigo 364 do Novo CPC). Pode ser fixado em hora, como ocorre no preparo do recurso inominado que deve ocorrer em 48 horas da interposição da espécie recursal, conforme previsto no §1º do Artigo 42 da Lei 9.099/95. Pode correr, outrossim, em mês ou, até mesmo, em ano.

Neste opúsculo, a preocupação recai sobre a contagem do prazo para prática de ato processual, na unidade dia.

Até a vigência do novo CPC, a contagem deste tipo de prazo seguia a fórmula parametrizada no artigo 184 do seu antecessor, segundo o qual (sic) “salvo disposição em contrário, computar-se-ão os prazos, excluindo o dia do começo e incluindo o do vencimento”.

Também em decorrência do dispositivo legal em comento, dava-se por prorrogado o prazo até o primeiro dia útil, se o vencimento caísse em dia sem que houvesse expediente no fórum: feriados, finais de semanas, etc.

Como cediço, no dia 18 de março de 2016, entrou em vigor o atual CPC.

Juntamente com ele, pairou, sobre os feitos cíveis regidos por aquele código, nova forma de contar prazos processuais. Isto porque, nos termos impresso no artigo 219 da lei em análise, na contagem de prazo processual em dia, estabelecido por lei ou pelo juiz, computar-se-ão somente os dias úteis.

É oportuno ressaltar que não houve alteração na forma de contagem do prazo para cumprimento da obrigação determinada judicialmente. Para este, o prazo continua sendo contado em dias corridos, inclusive férias, feriados ou outros dias em que não há expediente forense[3].

Mesmo assim, não tardou para que diversas vozes, a exemplo da entonada por Erik Linhares[4], se levantassem contra a contagem de prazo processual em dias úteis nos juizados especiais.

Os magistrados integrantes da diretoria e comissões do FONAJE elaboraram a Nota Técnica 01/2016. Por esta, a contagem em dia útil constitui “inexplicável distanciamento e indisfarçável subversão ao princípio constitucional da razoável duração do processo”. Além disto, sentencia o ato em destaque, a nova contagem de prazo é incompatível com o critério informador da celeridade, o que torna imperativo o afastamento desta regra do Novo CPC nos juizados estaduais cíveis[5].

Esta corrente ganhou tamanha força que conseguiu, no XXXIX FONAJE aprovar o enunciado 165, segundo o qual “Nos Juizados Especiais Cíveis, todos os prazos serão contados de forma contínua”[6].

O principal argumento utilizado por esta corrente, consoante já explicitado pela nota técnica citada alhures, é o de que a nova contagem de prazo, inaugurada pelo atual CPC fere de morte um dos pilares do juizado especial que é o princípio da celeridade processual.

Além disto, propugnam que esta vai ao arrepio da razoável duração do processo, materializado no Artigo art. 5º, LXXVIII da Constituição Federal.

Contudo, deve-se consignar que, uma vez afastada a contagem de prazo encartada pelo CPC, seria preciso encontrar uma solução legislativa para justificar a contagem em dias corridos nos juizados, até porque a Lei nº 9.099/95 é omissa sobre esta questão.

A solução dada pelos defensores desta corrente foi simplória. Defenderam que deveria ser aplicada a regra do Artigo 775 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Isto porque, segundo propugnam, esta guarda intrínseca relação valorativa com a Lei 9.099/95, a exemplo da capacidade postulatória das partes, vedação da citação por edital, unicidade da audiência, obrigatoriedade de comparecimento pessoal das partes à audiência, admissibilidade de julgamento por equidade, entre outras[7].

Permissa venia, trata-se de posição com a qual não concordamos. Vejamos:

Primus icutus oculi, é preciso reconhecer que a contagem do prazo em dias úteis afigura-se importante conquista dos causídicos, aqui incluindo os defensores públicos, advogados, procuradores, etc.  Deveria ser regra em todo o Ordenamento Jurídico brasileiro. Isto porque diminui a pressão que um prazo em curso exerce sobre eles, ao excluir, de seu cômputo, os sábados, domingos e feriados. E ao fazê-lo prestigia-se os princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório.

A nova forma de contagem do prazo para prática de atos nos processos cíveis, em hipótese alguma, fere o princípio da celeridade.

Na verdade, o atraso da tutela jurisdicional decorre da elevada demanda existente, de um lado; e péssima estrutura do Poder Judiciário, de outro.

Neste ponto, de nada adianta findar um prazo com brevidade se, após a protocolização da petição correlata, o processo ficará parado, por meses, inicialmente, aguardando um servidor fazer a conclusão dos autos e, posteriormente, muitos outros, talvez anos, até que o juiz, enfim, exare a análise respectiva.

Tanto é verdade o que aqui se diz que, segundo os dados da Justiça em Números 2016 do Conselho Nacional de Justiça[8], em 2015, um processo aguardou em média onze meses para ser sentenciado no juizado especial estadual. Em média, a fase de conhecimento neste microssistema da justiça durou quase dois anos; a de execução, quatro anos e três meses.

Não se pode esquecer, outrossim, que nos juizados especiais cíveis são poucos (e curtos), os prazos previstos na sua lei de regência para práticas de atos processuais mais corriqueiros: cinco dias para interposição de embargos de declaração; dez dias para protocolização do recurso inominado; dez dias para apresentação das contrarrazões ao recurso interposto; quinze dias para oposição de embargos à execução; outros quinze para a manifestação do embargado. Nada mais.

Portanto, resta aqui demonstrado que a contagem em dias úteis, nos Juizados, não fere o princípio da celeridade. Ao contrário, prestigia Princípios, inegavelmente, de maior carga axiológica, com os da Ampla defesa e do Contraditório.

Com a mesma tacada, pelos mesmos argumentos ora sustentados, enterra-se o discurso de que a contagem em dias úteis faz sangrar o Princípio da Razoável Duração do Processo, previsto no Artigo 5º, LXXVIII da Constituição Federal.

De mais a mais, é importante ressaltar que nos juizados especiais cíveis, mesmo em relação ao módulo de conhecimento, sempre aplicou-se, subsidiariamente, as regras do Código de Processo Civil. Desde o nascedouro deste destaque do Poder Judiciário, a receita para contagem de prazo estava no CPC.

Até a entrada em vigor do novel Código de Ritos, a CLT não era aplicada subsidiariamente aos Juizados Especiais. E nem tinha razão ser aplicada, porquanto lei especial, voltada para cuidar dos feitos trabalhistas.

Ora, não se pode agora, mais de duas décadas depois da vigência da lei atual dos juizados estaduais, do nada, sem qualquer base sólida, alterar a norma que a colmanta.

Aceitar tal acinte, além disto, traria vários problemas de natureza prática.

Isto porque, expressamente, consignou-se no artigo 52 da Lei 9.099/95 a aplicação subsidiária do CPC, na execução perante os juizados.

Pois bem.

Ainda que se admitisse a aplicação subsidiária do artigo 775 da CLT, a mesma somente poderia ser admitida na fase de conhecimento; jamais na fase de execução, pois haveria de se aplicar a norma do código de ritos. Ter-se-ia o absurdo de duas formas de contagem de prazos em um mesmo rito: em dias corridos (artigo 775 da CLT) na fase de conhecimento; em dias úteis, nos termos do artigo 219 do NCPC.

Mesmo problema ocorreria para contagem do prazo do recurso extraordinário, nos juizados especiais. Isto porque tal prazo não é fixado na Lei 9.099/95; mas na seção II do novo código de processo e exige sua contagem em dias úteis.

Portanto, nunca se admitiu a aplicação subsidiária da CLT nos Juizados Especiais Estaduais e não pode ser, neste ponto específico de contagem de prazo, que se pode admiti-la, até porque, consoante visto, trará mais problemas do que solução.

Conclui-se, portanto, que, no Juizado Especial Cível Estadual, o prazo para prática de atos processuais deverá ser contado em dias úteis, na forma preconizada no artigo 219 do Código de Processo Civil de 2015.

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Notas.

[1] Após a publicação deste trabalho no Portal Artigo Jurídico, recebi inúmeros e-mails, com alerta de que existe, nos Juizados Estaduais da Bahia, Turma de Uniformização de Jurisprudência. Trata-se, todavia, de verdadeira invenção administrativa, por parte, não apenas do sodalício baiano, mas de muitos Tribunais de Justiça, sem que exista qualquer previsão legal para tanto. Não por menos, recentemente, uma medida liminar vergastada pelo Conselheiro Henrique Ávila, do CNJ, suspendeu o funcionamento de órgãos que julgam recursos repetitivos, que uniformizam o entendimento, no âmbito dos juizados especiais de todo o país. Verificar detalhes em: (http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/84649-liminar-suspende-recursos-repetitivos-nos-juizados-especiais).

[2] Sugere-se a leitura do texto “O artigo 523, §1º do Novo Código de Processo Civil nos Juizados Especiais Cíveis” de Edenildo Couto (2016), disponível em https://artigojuridico.com.br/2016/08/28/a-aplicacao-integral-da-regra-do-artigo-523-%c2%a71o-do-novo-codigo-de-processo-civil-nos-juizados-especiais-civeis/.

[3]Neste sentido, AMARAL, Guilherme Rizzo. Comentários às alterações do Novo CPC. São Paulo: RJ, 2015. p. 312.

[4] LINHARES, Erik. A contagem de prazos processuais no novo CPC e os juizados especiais. Disponível em <http:// http://www.conjur.com.br/2016-mar-17/erick-linhares-contagem-prazos-juizados-especiais>.

[5] Nota técnica 01/2016 do FONAJE. Disponível em < http://www.amb.com.br/fonaje/?p=610>.

[6] Enunciados do FONAJE. Disponíveis em: <http:// amb.com.br/fonaje/?p=32>.

[7] LINHARES, Erik. opcit.

[8] Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2017/05/4c12ea9e44c05e1f766230c0115d3e14.pdf>

Mestrando em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia. Pós-graduado em Direito Processual Civil pelo Juspodivm. Bacharel em Direito pela Faculdade de Tecnologia e Ciências. Laureado pela Instituição supracitada. Escritor de livros e de vários artigos publicados em revistas jurídicas. Professor de diversas disciplinas do Direito. Editor fundador da revista Artigo jurídico. Atualmente é Assessor de Juiz - Tribunal de Justiça do Estado da Bahia e Professor de diversas disciplinas do curso de Direito.